Superfícies Pintadas
Escrito por Guan Un | Traduzido por Camilla Bazzanella
Oi, pessoal :)
Recentemente participei de um curso da LabPub ministrado pela MARAVILHOSA Jana Bianchi, que já trabalhou em títulos do universo de Wicked, Star Wars, Game of Thrones e muitos outros, sobre tradução de literatura de gênero: fantasia, ficção científica e horror. Foi uma experiência incrível. A turma tinha um entrosamento incomparável e nos divertimos muito nas aulas e no nosso grupo de WhatsApp.
A Jana, no primeiro dia de aula, surgiu com um desafio: buscar um conto de até 1000 palavras em revistas virtuais, contatar o autor e tentar conseguir os direitos para traduzir e publicar sua obra, de forma gratuita. E não é que eu consegui? Selecionei um conto incrível escrito pelo Guan Un, um escritor de ficção especulativa sino-australiano baseado em Sydney. Seu trabalho já foi mencionado no podcast LeVar Burton Reads, na Year’s Best Fantasy Vol 2, na revista Strange Horizons e muito mais. Saiba mais sobre ele em @thisisgya.bsky.social ou guanun.com. A versão final da minha tradução veio após um feedback enriquecedor da Jana.
Sem mais delongas, espero que goste de Superfícies Pintadas e busque outras histórias do autor. Você pode ler o conto original, em inglês, publicado na Nightmare Magazine, aqui.
Superfícies Pintadas
Escrito por GUAN UN
PUBLICADO EM agosto/2024 (edição 143) | 600 PALAVRAS
© 2024 por Guan Un.
Aviso de conteúdo: violência, misoginia, horror corporal.
Esta é uma releitura de uma lenda chinesa que não saía da minha cabeça e que já foi revisada muitas vezes. As duas coisas que me ajudaram a chegar a esse resultado foram diminuir a contagem de palavras pela metade e encontrar uma voz para o personagem principal que sugere que o terror não está somente no que está acontecendo, mas naqueles que podem ser cúmplices do ato.
– GU
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Após nosso casamento, levo minha esposa para Porto Partido. Pode até parecer uma escolha estranha, mas gosto de lá. Tanto maquinário esquecido. Tantos arranha-céus inundados. A roda-gigante que surge da água como um homem sinalizando que está se afogando.
Tudo isso me faz sentir em casa.
Minha esposa é infinitamente bela. Ela não se importa para onde vamos.
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Nosso quarto de hotel tem janelas panorâmicas de onde posso olhar para o porto, as luzes dos barcos se replicando na superfície escura da água. Os prédios arruinados, suas fachadas descascando.
Minha esposa estuda seu próprio reflexo no vidro e então entra no banheiro. A porta se fecha com um clique.
Enquanto espero, me sento na cama e assisto à televisão. A tela mostra um programa anterior à inundação. Uma pessoa está agachada em frente a uma tenda, tentando fazer uma fogueira e falando algo sobre sobrevivência.
Adormeço.
Quando acordo, o banheiro está vazio. Ela não está aqui.
A luz da televisão dança na janela: um farol para ninguém. Me pergunto onde ela pode estar. Para onde foi sem mim.
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Sonho com uma loja cheia de máscaras. Porcelana e tecido e pele.
Alguém que é e não é minha esposa se aproxima e toca meus lábios. Ela gesticula, uma instrução para fazer algo que não entendo.
Acordo na escuridão do quarto. Minha esposa está deitada ao meu lado, virada de costas. Fico deitado observando a curva suave de seu corpo. A suavidade de sua pele.
Porcelana e tecido e pele.
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Na noite seguinte, finjo dormir. Quando ela sai, eu a sigo.
O bar tem cheiro de cerveja derramada nas tábuas de madeira, suor e algo fritando na cozinha. É quase todo ocupado por homens, encurvados sobre copos como dedos em um punho. Na parede, um alvo para dardos tem mais buracos que superfície. Sobre ele se projeta a cabeça de algo irreconhecível.
Um homem em especial — cabeça raspada, um suor alcóolico, pescoço musculoso — fica rondando, invadindo o espaço das poucas mulheres que estão ali. Finalmente, ele se aproxima de minha esposa.
— Caramba, que gatinha, hein? — diz ele.
Minha esposa se vira para falar com ele, uma sobrancelha levantada como o arco da porta.
— Que cê acha? Vou te dar um chá. Te mostrar do que você precisa.
Uma mão aperta suas partes, um gesto grotesco. A outra se fecha sobre a mão dela.
Minha esposa fecha os olhos e parece curvar a cabeça.
Ele a puxa. Para os fundos, em direção aos banheiros. Ninguém faz nada.
Espero um pouco e então os sigo. Passo pela cozinha e por um corredor escuro onde legumes meio-apodrecidos estão empilhados de qualquer jeito sobre bandejas plásticas.
Ouço um grito afeminado e abro a porta do banheiro.
O homem está no chão, seu peito, sangrando. Minha esposa está montada nele, vestido torto, unhas vermelhas de onde arranharam a pele dele.
— O rosto dela — diz o homem para mim. Um pedido de ajuda, talvez. Na luta, ele deve tê-la arranhado. Como uma pintura danificada, o lado direito do rosto dela está borrado. Onde o olho ficava, tinta manchava a pele nua. Metade dos lábios caíam, formando uma careta.
Minha esposa olha para mim. O canto de sua boca pinga vermelho.
— Tá tudo bem — digo. — Você ainda é linda pra mim.
E fecho a porta atrás de mim para que ela termine o que começou.
